terça-feira, 10 de janeiro de 2017

FORMULA 3: A BRIGA DE PIQUET E SERRA



1978 - Com cinco vitórias em seis provas disputadas no espaço de apenas um mês e meio, Nelson Piquet consolidou sua posição de principal estrela da Formula 3 britânica, superando Chico Serra, que agora mantém apenas a liderança do Campeonato Vandervell.

Derrotado seguidamente por Piquet, Serra partiu para uma linha de ataque que surpreendeu os próprios ingleses: acusou o outro brasileiro de ter um motor fora do regulamento, bem mais veloz que os demais.

Depois da prova de Thruxton, quando chegou outra vez em segundo lugar, Serra preparava-se para entrar com um protesto junto aos comissários técnicos, mas foi contido pelos membros de sua própria equipe, que se mostravam relutantes já que fora ele próprio o dono da pole-position e da volta mais rápida da prova.

"O problema, dizia Chico, é os ingleses, muito honestos, não acreditam que uma coisa dessas possa acontecer. Mas pode. Nos treinos, Piquet "cozinha o galo", mas depois, na prova, abre logo uma boa distância nas cinco primeiras voltas e depois fica só mantendo a distância."

"Desde o início do ano venho achando o motor dele "meio bravo", mas agora tenho quase certeza. E, na próxima prova, se ele ganhar, vou mandar abrir seu motor, mesmo que tenha que brigar com minha equipe. As vistorias que os comissários fazem antes da corrida não adiantam nada: tem é que abrir o motor depois."

Na prova seguinte, Brands Hatch, Piquet voltou a vencer (fazendo ainda a pole-position e a melhor volta), mas Serra, que desistiu depois de parar nos boxes para trocar um pneu furado quando estava em terceiro, não chegou a pedir a vistoria do carro de Piquet.

"Acho, disse Piquet depois da prova de Thruxton, que essas atitudes de Serra são muito chatas. No início da temporada éramos amigos, nos dávamos bem, mas bastou eu começar a ganhar corridas para ele mudar. E são acusações absurdas: os motores vêm selados da fábrica, e antes de cada prova são checados pelos comissários ingleses que são super-rígidos. No fundo, nada disso me atinge: se quiserem abrir, abram. Estou tranquilo, pois sei que estou vencendo à custa de muito trabalho meu e da minha equipe, que é quase toda brasileira."

Warwick mudou de carro, mas continua perdendo

Para a imprensa inglesa, um dos motivos da superioridade de Piquet está na melhor preparação do seu motor Toyota, trabalho este feito pelos irmãos Pedrazzani na Itália. Quando Ron Dennis organizou a equipe de Serra, os planos eram de que seus motores seriam preparados por Brian Hart. Mas, tendo que dedicar-se quase que exclusivamente a seus motores de Formula 2, Brian não pôde aceitar o trabalho. E os motores de Serra passaram para as mãos de John Judd, que fez os motores da maior parte dos carros que disputavam a F-3 Inglesa, inclusive o de Derek Warwick.

Além do motor, outro ponto positivo a favor de Piquet é a competitividade de seu carro, um Ralt RTL. Essa mesma marca era usada por Derek Warwick no início da temporada, quando ele acumulou várias vitórias e, quando Warwick passou a correr com um March 783, o mesmo carro usado por Serra, suas vitórias cessaram. Agora, o próprio Warwick admite que foi um erro trocar de carro e, por isso, voltou para seu antigo Ralt na corrida de Brands Hatch, onde chegou em segundo.

O Ralt de Piquet, entretanto, é ainda melhor graças às modificações que ele mesmo tem feito no carro (Piquet mudou as posições dos radiadores, alterou a suspensão, aliviou peso) com muito sucesso, a ponto de o projetista do Ralt, Ron Tauranac, ter passado a escolhê-lo como seu piloto de testes, com quem troca informações constantes.

O objetivo de Piquet e Serra é o mesmo: passar pela Formula 2 em direção à Formula 1.

Para alguns especialistas, o que poderia estar levando Serra às atitudes que tem tomado é uma certa imaturidade. Depois de sair do Brasil como o melhor kartista de todos os tempos, como vice-campeão da Fórmula Volkswagen 1300 com apenas cinco corridas disputadas, foi campeão inglês de Formula Ford num ritmo alucinante. Assim, passou para a Formula 3 com muita fama, transformado na promessa do automobilismo brasileiro, e escudado por um excelente esquema financeiro e promocional. Com tudo isso, ninguém duvidava que ele poderia bater todos os recordes de Emerson, que em 1970 saiu praticamente direto da F3 para os Lotus de F1.


Tranquilo e seguro, Piquet encara naturalmente tudo que vem acontecendo:

" Meu objetivo é realmente a Formula 1, e, se resolvi correr nos campeonatos ingleses, abandonando o Campeonato Europeu que disputei ano passado e que é até mais competitivo, foi para permanecer no maior centro automobilístico do mundo, a Inglaterra."

Outra coisa: eu sei que há uma grande máquina publicitária por trás do Chico Serra. E,se consigo vencê-lo, entro de tabela nesse esquema, o que é muito bom para mim.

A rigor, o automobilismo brasileiro é quem lucra com a excepcional campanha dos dois. Mas, se eles continuarem assim, teremos a repetição da rivalidade Emerson/Moco, que de grandes amigos no Brasil chegaram a se tornar inimigos na F1, como se não houvesse lugar para dois campeões, E este lugar existe, mesmo na Formula 3.







Nenhum comentário: