(São Bento do Una, 1 de julho de 1946)
Alceu Valença se recusa a contar o tempo. “Oito ou oitenta, não sei”, diz ele sobre os 80 anos que completará em 1º de julho. Talvez a resposta esteja em uma de suas canções que versam sobre o tema, Embolada do Tempo. Nela, o tempo é incalculável, sem fim nem começo. Filosofando ainda mais, a letra diz que ele é “a existência do nada”.
Não que as marcas dos anos não aborreçam o pernambucano de São Bento do Una. Valença confessa que faria uma cirurgia plástica apenas para que ninguém mais pergunte sua idade, exposta a todos na turnê Oitenta Girassóis, que ele estreou neste mês de março, cantando seus grandes sucessos - dia 28 é a vez de São Paulo receber o show, no Parque Villa-Lobos.
Alceu Valença tem outras artimanhas para se esquivar. No palco, ele diz, é um “menino travesso e traquina”. Fora dele, caminha 17 mil passos diariamente. Usa o método Urbes Paralelas. São Paulo, Rio, Recife e Lisboa podem coexistir perfeitamente. “Eu estou em um canto, corto e vou dar em outro”, diz, em mais um drible.
É quando caminha que Valença ouve apenas o que quer. Jamais no fone de ouvido. “Não ouço música. Prefiro caminhar e ouvir minhas passadas. Acho lindo o som quando eu chuto uma folha”, diz. Em conversa descontraída com o Estadão, o advogado de formação também lembra o curto período que passou em Harvard, quando foi chamado de “Bob Dylan brasileiro”.
Os 80 anos têm um significado especial para você?
Para mim, é oito. Oito ou oitenta, não sei, até agora. É uma data. De minha parte - preste atenção -, não estou ligando e nem nunca liguei para aniversário. Sempre que tem um aniversário meu, eu digo: “Eu quero é show!” Para que eu quero ver [festa de] aniversário? Se eu tomasse um porre...Mas não bebo mesmo. Os convidados vão ficando bêbados e, quem não bebe, não aguenta muito tempo. É muito chato (risos). Agora, essa comemoração [a turnê] não é obrigada a ser em 1º de julho [data do aniversário], pode ser qualquer dia. Aí, tudo bem.
No palco, você parece sempre estar em festa
Palco é vitamina. É alegria, harmonia. É comunicação. Muitas vezes, me encontro cansado, fatigado, mas quando chego ao palco é aquela energia absurda. Aí, viro o menino travesso, traquina, meio maluco. E adoro sê-lo.
Na música ‘Embolada do Tempo’ você diz que ‘o tempo não tem parada’. Para onde o tempo o está levando?
Essa música é filosófica. “Eu marco o tempo na base da embolada/da rima bem ritmada/ do pandeiro e do ganzá/O tempo em si não tem fim/ não tem começo/ mesmo pensado ao avesso/ não se pode mensurar/ Buraco negro/a existência do nada/Noves fora, nada, nada/Por isso nos causa medo/ Tempo é segredo/senhor de rugas e marcas/E das horas abstratas/quando paro pra pensar”. Bom, se quisesse tirar minhas rugas, a cirurgia plástica, atualmente, está genial. Uma perfeição inacreditável, rapaz! Mas quem faz essa cirurgia tem que dormir de cabeça para cima. Eu não consigo, senão tirava as marcas abstratas da minha pele.
Você faria mesmo um procedimento estético?
Por que não? Faria para ninguém me perguntar quantos anos eu tenho. Outro dia, aqui em São Paulo, fui ao pilates na rua Tutóia [no bairro do Paraíso] e, quando estava saindo, um senhor parou em um carro e disse: “Alceu Valença? Você está novo demais! Você vai fazer 70 quando?”. Eu disse: “Vou fazer 69!” (risos).
O passar do tempo o assusta, de alguma maneira?
Não. Eu corro, caminho 17 mil passos na rua, minha testosterona é um absurdo (risos). Bom, foi o que me disseram. Para que eu vou me preocupar com o tempo, então? Mas exagerei. Ouvindo as músicas que eu havia escolhido para o show, como Agalopado e Bicho Maluco Beleza, que têm uma baita rapidez, comecei a correr na rua. Não trotar, correr mesmo. Dava pulos e dizia: “Você é uma criança!”. Me senti um cavalo. Me deu canelite. Agora, já estou bem.
O pessoal deixa você andar na rua ou pede muita selfie?
Sei como fazer. Saio por ruas [mais vazias]. Não ando pela praia. Caminhar me dá alegria. Já virou uma doença minha. Tenho até meu projeto Urbes Paralelas. Eu estou em um canto, corto e vou dar em outro. Posso estar caminhando no centro de São Paulo e dar no Rio de Janeiro. Posso estar em uma velha rua do Recife e cortar para Portugal...Há muita similaridade nesses locais.
Suas músicas têm muitas estradas e caminhos. Sempre esteve em busca de chegar a algum lugar?
Ninguém chega aonde quer. A pior coisa do mundo é a tal da aposentadoria. É bom, é necessário, mas o aposentado deve arrumar alguma coisa para realizar. Caminhar, curtir o mar, ir para uma floresta, tomar algo. Parou, está lascado.
Alguns artistas de sua geração estão se despedindo dos palcos. O Gilberto Gil, por exemplo. O que pensa sobre isso?
Não marco hora para parar. Teve uma época que Luiz Gonzaga parou e depois voltou. Eu não. Logo depois desses shows, vou para uma turnê na Europa. Minha quinta seguida. A internet é democrática, abriu os ouvidos das pessoas que, antigamente, só ouviam música anglófona.
Suas músicas também têm altas doses de solidão e saudade. São sentimentos seus?
[cantarola Solidão]. Os artistas têm muita solidão. O fato de estarmos sempre em hotéis é fogo. Solidão eu compus em Belo Horizonte, depois de um show no Palácio das Artes. Lotado, muita energia. Cheguei no hotel e a dona insônia estava deitada em minha cama. A megera não me deixou dormir um só segundo. Três, quatro da manhã, me levantei e olhei para a rua. Vi a solidão. Olhei para as estrelas, para a lua, e fiz essa canção.
Luiz Gonzaga dizia que você eletrificou o pife. Como você elaborou esse som?
Ele disse que criei uma banda de pife elétrica [imita a voz de Gonzaga]. Minha música tem uma relação muito forte com o sertão e o agreste - uma parte dela, porque tem o frevo, que não tem nada a ver -, mas eu coloco uma flauta e outra no teclado, além da guitarra. Foi natural. Minha guitarra não é obrigada a fazer o mesmo que um guitarrista inglês ou americano faz. Coloquei uma linha melódica nos solos, nas introduções, sem imitar ninguém. Não quero saber de ninguém, aliás.
Simplesmente?
Acho simplíssimo. Minhas influências vieram de maneira natural e vivenciada. Em São Bento no Una, com meu avô, tocando viola, aprendi tudo sobre violeiro. Um embolador na feira, o cego arauto que tocava rabeca, o sanfoneiro de oito baixos, a voz de Luiz Gonzaga no alto-falante...Já no Recife, havia na frente da minha casa um poeta chamado Carlos Pena Filho e o maestro Nelson Ferreira, um dos maiores compositores de frevo de todos os tempos. Na minha rua passavam bandas de frevo, os frevos líricos, que têm uma grande relação com Portugal. Passavam os caboclinhos, do nosso povo originário, e o maracatu, de origem africana. Isso tudo entrou na minha cabeça.
Você estudou em Harvard no final dos anos 1960. Como foi esse período por lá?
Estudei por pouco tempo. Quando falam em Harvard, as pessoas ficam admiradas. Fui realizar um curso de Sociologia e Desenvolvimento da América Latina. Foi uma época boa. Eu pegava o violão, ia para a rua e ficava tocando. Era o período da Guerra do Vietnã. Um jornalista de Fall River [em Massachusetts] me viu e pirou. Ficou sabendo que eu era brasileiro, nordestino. Ele botou [no jornal]: “O Bob Dylan brasileiro”. Não! É o Bob Dylan que é o Alceu de lá.
Nessa época você estava envolvido em questões sociais?
Todo mundo estava - as pessoas mais sensíveis participavam de passeatas e reuniões.
Viu de perto os Panteras Negras?
Sim. Fui a um esconderijo dos Panteras. Me lembro de uma frase que ouvi: “Quando acabarem as diferenças sociais, acaba o preconceito”.
No ano passado, seus colegas Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Paulinho da Viola se reuniram em protestos no Rio de Janeiro contra a PEC da Blindagem e da Anistia. Você foi convidado?
Nesse dia eu tinha um show marcado no Maranhão. Não podia quebrar minha agenda. Mas falei nas redes sociais. Pode olhar lá.
Você conseguiu separar o Alceu artista do cidadão?
Não sei se me acho tão artista assim. No palco, eu sou.
Você se interessa por novos gêneros musicais, como o rap, o trap, o piseiro e a vaquejada?
Não ouço música. Isso porque meu pai não tinha radiola lá em casa. Ele não queria que eu fosse artista. Minha mulher me deu uma gramophone. Nunca ouvi nada nele. Nem meus próprios discos. Conheço alguns artistas de shows, como Juliana Linhares, do Rio Grande do Norte, e Madu, brasileira que está em Portugal. Quando as plataformas digitais chegaram, comecei a ouvir minhas músicas. Mas, depois, ficou cansativo ouvir sempre a mesma coisa. Não quero não. Prefiro caminhar e ouvir minhas passadas. Acho lindo o som de quando eu chuto uma folha.

