sexta-feira, 18 de março de 2016

A VOZ IGNORADA DAS RUAS




CORA RÓNAI - publicado no O GLOBO 17/03/2016

A vantagem de ser cronista do Segundo Caderno, em relação aos colegas de hard news, é que nós não precisamos escrever sobre os últimos acontecimentos: Brasília, em tese, pode ser só uma cidade plantada no cerrado, um conjunto de palácios, uma fotografia na parede. A prática é mais complicada. Busco outros assuntos, reviro livros e séries novas, mas não consigo pensar em nada, a não ser no esquisitíssimo momento que estamos vivendo.

Hoje é terça-feira, 15 de março, o dia em que o Brasil pegou fogo.

No domingo, fui ao protesto na Avenida Atlântica. Nunca vi nada igual em tamanho, e olhem que fui ao comício pelas Diretas, que foi gigantesco. Achei que passaríamos um bom tempo falando daquele mar verde e amarelo de gente, tentando decifrar o significado exato de tantas inquietações e descontentamentos; mas tudo está acontecendo tão rápido que, passados apenas dois dias das maiores manifestações jamais vistas neste país, elas já vão longe, perdidas num ponto qualquer do tempo que não chegou a ser percebido pelo Planalto.

Enquanto escrevo, à noite, o presidente está reunido com a ex-presidente, em palácio, buscando se homiziar num ministério.

O convite de Dilma a Lula, vindo como um tapa na cara das multidões que foram às ruas, me ajuda a entender o que vai pelo coração dos black blocs. É evidente que manifestações pacíficas, ainda mais feitas aos domingos, para não parar o país, não bastam para convencer o governo da sua impopularidade.

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É sempre humilhante constatar como “eles” — os de lá — acham que somos idiotas. O pior é que provavelmente somos mesmo, ou eles não estariam no poder, livres de preocupações burguesas como o pagamento das próprias contas, enquanto nós nos angustiamos cada vez mais com o fim do mês.

Acompanhei a entrevista do Mercadante com algo próximo à admiração, fascinada com a sua capacidade de transformar a simples transcrição de uma conversa bastante clara num texto denso, cheio de significados e intenções contraditórias.

Também fico admirada com a extraordinária memória que os réus demonstram ter em suas delações premiadas. Está tudo lá: nomes, datas, endereços, quem levou quanto de quem para que e para onde. Não há limite para o que lembram.

“É que canalhas tomam notas”, me explica um amigo. “Elas são a sua proteção e defesa”.

É isso mesmo.

Canalhas tomam notas.

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Os governistas passaram o domingo e a segunda tentando desconstruir as manifestações. Das milhares de imagens produzidas ao longo do dia, pinçaram, com o entusiasmo de entomologistas cuidando de borboletas raras, as que recriavam o protesto de acordo com o que queriam ver — ou com o que queriam que fosse, uma espécie de marcha de ricos de anedota, egoístas e cafonas, eleitores do Bolsonaro e do Malafaia. Nas suas páginas, que escorrem ódio por todos os pixels, as maiores manifestações políticas da nossa História não passaram de uma espécie de micareta sinistra, protagonizada por analfabetos políticos manipulados pela direita radical, pelo FHC e, claro, pela imprensa golpista.

Coitados deles. Suponho que precisem demonizar quem foi às ruas para conseguir justificar, talvez até para si mesmos, o apoio que ainda dão ao governo.

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Ficou aparente nesses últimos dias, aliás, o ódio descomunal que, graças a Lula, essa esquerda de Facebook devota à classe média. Na falta de argumento mais forte para desmoralizar as manifestações, a presença maciça da classe média passou a ser o motivo principal do asco e do repúdio petistas. Como se não ser muito pobre (ou muito rico) fosse algum defeito de origem, uma espécie de pecado sem remissão — e como se não fossem, todos eles, tão fidalgos, membros dessa mesma classe que tanto desprezam.

Para os lulistas de classe média, a classe média que não vota no PT não é “povo” — e, consequentemente, não representa ninguém, nem a si mesma, já que é massa de manobra das figuras e instituições mais tenebrosas da república.

Ainda assim, seria bom que o PT emitisse novas diretrizes para deixar claro, de uma vez por todas, quem tem e quem não tem o direito legítimo de se manifestar. Seria útil, por exemplo, saber quais faixas salariais merecem respeito e quais são os CEPs dignos de consideração. Isso pouparia muito desgaste às pessoas que saem de casa achando que, com a sua presença nas ruas, serão ouvidas pelos seus representantes: tolinhas.

É assim que funciona na Coreia do Norte, aquele país admirável onde os endereços das pessoas correspondem à sua fidelidade ao regime, ao Partido dos Trabalhadores (sim, chama-se assim também lá) e ao Querido Líder. Como na capital Pyongyang só vivem membros do PT e gente da sua total confiança, todas as manifestações, sem exceção, são a favor do governo. Quem é contra não precisa ser ouvido. Aliás, quem é contra nem fala.

Não é prático?

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O bom é que, apesar de tudo, a gente ainda ri. Eu adorei isto:

“O clima das manifestações está tão quente que hoje uma mulher espirrou no ônibus, eu gritei ‘saúde!’, ela gritou ‘educação!’ e todos começaram a cantar o Hino Nacional. Foi lindo”.




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