Eu aprendi a escrever a lápis. Passar do lápis “à tinta” foi dramático. Escrever a lápis implicava em poder apagar usando a borracha – a qual, com um gesto, apagava os erros da escrita. A escrita à tinta desvendava a imensa divisão entre o universo transitório do desdizer-se hipócrita e populista, usando a borracha, e o permanente território da escrita que arquivava sabedoria e poder.
A tinta remetia ao que se pretendia ou presumia perene e interminável. Ao que deveria ser marcado em pedra, bronze e pergaminho. A reprodução fonográfica, fotográfica e cinematográfica culminou na digital e na portabilidade que, naqueles tempos jurássicos, era inimaginável. Ela engendrou essa era da simultaneidade dos celulares. Criou a capacidade de nos autoconhecermos e, com a ela, a vergonha ou o orgulho de nos vermos de fora para dentro, como um mentiroso e um charlatão. Essas trivialidades do mundo da baixa e da alta política.
No final do ginásio, comecei a usar uma máquina de escrever Olivetti de papai. Nesse patamar no qual permaneci por muito anos, escrevi (Deus sabe como) em inglês, numa máquina Hermes, minha tese de doutoramento e alguns dos meus livros.
Em 1986, quando aceitei uma cátedra na Universidade de Notre Dame chegou a gloriosa revolução do computador. Vivi o milagre de poder escrever e apagar instantaneamente. Milagre coadjuvado pelas inteligências dos dicionários e apps que respondem a dúvidas, lembram nomes e datas e produzem “sabedoria” onde só havia esquecimento e ignorância.
E nisso jaz a questão. Podemos ver enormes quantidades de fatos, mas não compreender sua razão de ser – o seu valor numa estrutura. O que os membros da minha tribo profissional chamam de compreensão cultural – essa tessitura que os objetos seus símbolos têm entre si...
