A coluna sai no jornal impresso às quartas-feiras – esta, marcada pelas cinzas que simbolizam rotinas e limites suspensos no carnaval. Um amador pergunta por que se “pula” carnaval? Refleti sobre isso faz tempo: porque o pular não leva a nenhum lugar e, por isso, é uma extremada expressão de alegria. Nas procissões, festas cívicas e passeatas políticas, marcha-se: notou o contraste? Os pulos carnavalescos equivalem às prerrogativas que mascaram ilícitos.
Pular não viola a “ética de arrumação” na qual o roubo é relativo a quem rouba. Conflitos de interesses ou dilemas são legalmente derretidos nos privilégios (na lei destinada para cada cargo ou casta).
O problema maior é como bloquear a igualdade republicana, mesmo quando agentes públicos têm um padrão de conduta baseado no segredo das aristocracias e dos autoritarismos.
Aliás, não sei por que tanta surpresa com o elo entre o Master e o STF, exceto se considerarmos a miopia política em relação à força do dar-para-receber que, no fundo, toca o sistema! No Brasil, simpatias e favores sempre foram centrais no exercício da dominação. Na suprema coragem de nada negar aos amigos, a luta de classe desaparece e a história retorna ao seu plácido berço familístico. O incômodo carnaval financeiro do Master não seria revelado sem o impulso da transparência digital que impede segredos, ao lado dos absurdos engendrados pela dominação relacional. A imparcialidade perante a lei, a grande dificuldade da vida pública nacional. Adotar a verdade como um valor, e não como um uma mera promessa eleitoral, sempre foi uma ingenuidade.
Os penduricalhos que aumentam irracionalmente os salários de juízes e altos funcionários públicos seguem a lógica da aristocratização, confirmando a desigualdade como um privilégio legitimado pela Justiça, cuja orientação deveria ser a igualdade. Para resumir, os donos do poder exprimem o que reitero neste espaço. No Brasil, o Estado (disfarçado de Robin Hood) assalta permanentemente a sociedade.
Meu antigo mentor harvardiano Dick Moneygrand diz: todos esses infindáveis tribunais e sistemas legais brasileiros inibem uma clara visão dos interesse da “casa” em contraste com os da “rua”: a ética da casa contraria a do mundo público. Uma manda inocentar e a outra, punir. E vocês insistem em tudo enxergar pela ótica da luta de classes quando, de fato, o sistema é segmentado e sedimentado hierarquicamente. A prova disso é que os partidos agem familisticamente. Vossos políticos flertam, namoram e acasalam-se, reproduzindo estruturas conjugais.
O que isso diz? Trata-se de uma redução do público às afinidades familísticas e quando redes se estruturam ancoradas no ideal aristocrático surgem esses escândalos que, na verdade, são a alma do sistema.