O clima de desrespeito ao outro se expressa, sem dúvida, na corrupção que lavra em nosso país. Os conchavos e acertos por cima entre os detentores do poder, malefício de séculos, também consagram o mais perfeito desprezo por todos os demais, com a concretização do princípio de que “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”.
Infelizmente, o desprezo ao próximo está presente no cotidiano do brasileiro, a começar pelo costume de não dar “bom dia” nem mesmo ao vizinho no elevador do edifício onde se mora. O “bom dia” soa como uma invasão, a ponto de se receber como resposta uma cara amarrada a dizer: “Bom dia, você”.
Mas o trânsito é o exemplo mais significativo de como se dão as relações sem prevalência do respeito à pessoa do outro. Mais vale chegar logo, o mais depressa, ao seu destino para satisfação de urgência incontida, na maioria das vezes nada justificada, do que evitar riscos ao próximo. O princípio consagrado no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) de ser o pedestre prioridade é letra morta. Não se atende à ordem clara e precisa de que se respeite a faixa de pedestres. Instala-se uma confrontação: pedestres contra motoristas. A faixa de pedestres apenas existe para colorir o asfalto, ao contrário do que sucede em outros países.
Se numa esquina na conversão à direita há faixa de pedestre, o sinal aberto indica estar livre o trânsito para seguir em frente, mas para conversão à direita, se houver faixa, a preferência é do pedestre, e o motorista deve parar e esperar a sua travessia. Mas é arriscado, corretamente, assim agir: o pedestre será atropelado pelo apressado veículo que converte à direita e morre tendo razão; o carro que espera o pedestre atravessar na faixa com certeza levará um buzinaço do de trás, com o risco de colisão na traseira.
Mas o mais espantosamente revelador da guerra diária vivida no cotidiano de São Paulo está na tumultuada presença das motos. Os motociclistas mudam de personalidade ao cavalgarem uma moto. Formam, então, um batalhão de cavalaria ligeira, a enfrentar todos os obstáculos, para com coragem e maestria driblar os retrovisores inimigos, em arriscados malabarismos, alardeando com a estridência da buzina a chegada do combatente a exigir um abre-alas imediato. O número de vítimas motociclistas é imenso. As ruas de São Paulo se transformam em campo de batalha com motos velozmente transitando entre carros em movimento, com joelhos a passarem raspando pelos para-choques.
Disciplina no trânsito viria com campanhas educacionais e com a eficaz imposição de multas a práticas proibidas, como desobedecer a faixa de pedestre. A menor velocidade tornará a cidade e os motoristas menos tensos, conscientes da diminuta diferença de tempo gasto no deslocamento. Não se espera reproduzir Helsinque, capital da Finlândia, que entre 2024 e 2025 não apresentou morte no trânsito, como consequência de limites de velocidade mais baixos e educação rigorosa de conscientização dos riscos.
Mudanças são imperiosas: nosso panorama é assustador. Segundo o Infosiga do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP), que contabiliza e classifica acidentes de trânsito, a maioria dos eventos envolve motos. Entre janeiro de 2024 e abril de 2026, as vítimas masculinas fatais constituem 83%, sendo 42% decorrentes de acidente com moto, seguido de atropelamento (26%) e automóvel (7%), apesar de só recentemente o número de motos quase se igualar ao de automóveis. Conforme o Sindicato dos Mensageiros, Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipal do Estado de São Paulo (Sindimoto-SP), entre 2020 e 2025, 45 mil motociclistas foram internados na cidade de São Paulo, sofrendo severas mutilações. Por sua vez, no País, segundo dados do Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde, apresentados na Conferência Nacional de Segurança no Trânsito de julho de 2025, entre 2010 e 2023, 1,4 milhão de motociclistas, dos quais 20% motoboys, foram internados, com custo de R$ 2 bilhões.
Estudo da Associação Paulista de Medicina (APM), de janeiro de 2026, confirma que o custo das internações de motociclistas em hospitais pode chegar a cinco vezes o valor do repasse feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A maior parte dos acidentes se dá com motos transitando em alta velocidade entre os carros em movimento. O texto original do CTB, de 1997, trazia a proibição de motos andarem em “corredor” entre carros (art. 56), a não ser que o trânsito estivesse parado. O presidente Fernando Henrique Cardoso, mal orientado, vetou sob a escusa de não existir tal vedação em outro país.
O Congresso tentou reintroduzir essa norma, primeiramente pelo Projeto de Lei 2.650/03, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), em 2009, com efeito conclusivo, havendo, no entanto, recurso apresentado pelo então deputado Jair Bolsonaro para apreciação pelo plenário. O líder das motociatas teve oportunidade também de barrar nova disposição neste sentido constante da Lei n.º 14.071, de 2020, que, como presidente, vetou.
Os números de mortos e feridos e também os gastos não “sensibilizam”: mais vale a pressa para não perder tempo com o outro nem com sua própria segurança. Essa é a deseducação da sociedade e de seus dirigentes a ser vencida para se ter um Estado de Direito material, fundado no respeito efetivo à pessoa humana.











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