O carnaval tem um lado esquecido que define seu paradoxal temperamento de ser, ao mesmo tempo, uma festa profana e sagrada. Se no carnaval as irreverências são possíveis, deve-se lembrar que ele ocorre entre o Advento e a Quaresma – o nascimento e a paixão de Cristo.
O carnaval inventa um intervalo libertino entre dois eventos cruciais da religiosidade católica: o nascimento, a morte e a ressurreição de Deus encarnado em Jesus Cristo. A festa de Momo é um espaço de licenciosidades que invertem o cotidiano – gênero e idade são neutralizados; a rua vira casa e a noite, dia; o bloco voluntário substitui a compulsão da família; o canto malicioso, o discurso e a prece; e a estrutura social fantasiosamente se inverte: pobre vira nobre e negro ganha a liberdade do branco.
Depois dessa liberdade cósmica expressa no abuso do corpo ou carne – pois carnaval (carne levare) significa “abandonar a carne” –, chega a Quaresma, exprimindo uma polaridade comum em todas as sociedades: depois do excesso e da guerra, vêm a disciplina e a paz.
Conforme afirmei nas minhas pesquisas, o papel do carnaval neste Brasil legislado e dominado por gente branca que ocupa altos cargos e, se culpada, escapa da lei pela lei, o carnaval se modernizou. Incorporou dimensões capitalistas, organizando-se em grupos profissionais, com desfiles competitivos, ingressos, tempo regulado e prêmios. Nesses tempos de moderno desencanto, o “brincar” tem sido vencido pela competição que – como no esporte e na vida em geral – determina o campeão e o prêmio. Tudo realizado sob a égide do “progresso” que calcula, racionaliza e, como dizia Max Weber, desencanta.
É dentro desse contexto que ocorre a guinada dos deuses, orixás, fadas e outras figuras encantadas para as celebridades. Tudo se passa, como é típico do capitalismo, no movimento que vai dos céus à crueza do mundo real. A fantasia tem sido absorvida pela voracidade capitalista da luta por dinheiro e, com ela, por uma ameaça ainda mais perversa: a da propaganda político-partidária.
Se houver esse movimento infeliz de abrir o carnaval para a louvação e a adesão política, como fez a Escola de Samba Acadêmicos de Niterói ao petismo e ao presidente Lula, o carnaval será canibalizado pelo que ele sublima: a luta de classes, sem pandeiro, mas com guilhotinas.
Seria o fim do que o carnaval expressa como alternativa simbólica. Será a morte de Dom Carnal pela convencionalidade burra, hipocrisia, mentira e pelas regras que, desde a sua invenção, celebram o lado mais humano da nossa humanidade. O riso pelo riso e a vida mesmo sabendo que se morre.
Nota: Se conservador é simbolizado como lata de conserva, todo canhoto seria esquerdista; e os destros, fascistas.
PS: Expresso aqui meus sentimentos pela morte do prof. João Baptista Borges Pereira, um companheiro profissional afetuoso.
