sexta-feira, 19 de junho de 2026

BOA NOITE ... “igual aos irmãos Batista” !


 Por Aguirre Talento
19/06/2026 | 18h55

BRASÍLIA - Mensagens inéditas encontradas pela Polícia Federal no telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro citam o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), como um intermediário para enviar recado ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, de quem Wagner é amigo próximo.

O Estadão teve acesso com exclusividade aos diálogos de Vorcaro que citam Jaques Wagner. Em nota, o senador disse reiterar que não tem nenhuma relação com Vorcaro e “não pode ser responsabilizado por conversas de terceiros, que sequer participou e em contexto que sequer sabe qual foi”, disse. “Não existiu intermediação e não existe relação”, reiterou.

Wagner foi alvo, na quinta-feira, 18, de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero, por suspeita de receber propina do ex-sócio de Vorcaro no Banco Master, Augusto Lima, por meio da compra de um apartamento de R$ 2,5 milhões e pagamentos a uma empresa de familiar no valor de R$ 3,5 milhões.

Os diálogos demonstram, de acordo com a PF, que Vorcaro também tinha relação com o senador, marcou encontros com Jaques Wagner e tinha acesso direto ao seu telefone celular. A PF também aponta que, além de Augusto Lima, o banqueiro Daniel Vorcaro também demonstrava ter influência com políticos da Bahia.

A conversa que cita Lula foi mantida entre Vorcaro e um funcionário seu no Banco Master, Fernando Mascarenhas Filho, em 17 de julho de 2024. Nas mensagens, Vorcaro comemora ao receber a informação de que estava sendo citado como alguém próximo ao governo federal “igual aos irmãos Batista”, uma referência aos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do grupo J&F.

Mascarenhas Filho escreveu ao banqueiro: “Unica coisa que falaram que somos proximos do governo, igual irmaos batista sao. O que é verdade rsrs”. Após compartilharem risadas, Vorcaro diz: “Isso aí é marketing pra nós. Manda pro Lula e pra base aliada”.

Em resposta, Mascarenhas Filho afirmou: “Vou mandar então pra tio Guiga e Jaques”. De acordo com a PF, Guiga seria o publicitário baiano Guilherme Sodré, considerado amigo muito próximo do senador petista e citado pela investigação com seu operador financeiro.

Ao analisar o material, a PF diz que os diálogos “sugerem proximidade entre Daniel Vorcaro e pessoas com poder político no estado da Bahia”.

“Identificou-se no aparelho celular de DANIEL BUENO VORCARO conversa com o contato ‘Fernando Master’ referente a FERNANDO DE GOES MASCARENHAS FILHO, Diretor Comercial do Banco Master, em que este afirma existir proximidade entre o banco e o Governo Federal: ‘Única coisa que falaram que somos proximos do governo, igual irmaos batista sao. O que é verdade rsrs”. Em seguida, afirmou tratar-se de “mkt pra nos” e sugeriu encaminhar o material ao Presidente Lula e à base aliada. O interlocutor então replicou: “vou mandar então pra tio guiga e Jaques” – referência direta a GUILHERME SODRÉ MARTINS e ao Senador JAQUES WAGNER", escreveu a PF.

Na investigação, a PF apontou que Daniel Vorcaro também foi responsável por dar vantagens indevidas ao senador baiano em troca da sua atuação parlamentar em favor do Banco Master.

“Há elementos convergentes segundo os quais, pelo menos entre 2024 e 2025, JAQUES WAGNER recebeu de AUGUSTO FERREIRA LIMA e DANIEL BUENO VORCARO, diretamente ou por familiares próximos, vantagens econômicas diversas, em aparente correlação com sua atividade como senador da República, voltada a favorecer os interesses do Banco Master em pautas parlamentares e em temas regulatórios do sistema bancário”, escreveu a PF.

A investigação aponta a atuação de Wagner em propostas para tentar ampliar o crédito consignado, em iniciativas relacionadas ao aumento da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e no acompanhamento da tentativa de venda do Banco Master ao BRB, medidas que, segundo a PF, eram estratégicas para as fraudes comandadas por Vorcaro.

A investigação da PF aponta que o senador manteve interlocução direta com o ex-sócio de Vorcaro, Augusto Ferreira Lima, sobre propostas legislativas e iniciativas parlamentares que poderiam beneficiar o Master.

Alvo da primeira fase da Compliance Zero em novembro, Augusto Lima voltou a ser alvo de medidas da Polícia Federal nesta quinta-feira, 18. Agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao empresário na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal. A defesa de Lima afirmou que as buscas foram “desnecessárias”.


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BRASÍLIA - O Ministério da Justiça enviou nesta semana ofícios solicitando a devolução de policiais federais cedidos para auxiliar magistrados. A ação tem sido vista nos bastidores do Judiciário e entre delegados da Polícia Federal como uma retaliação do governo para afetar a equipe do gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, responsável por duas investigações que atingem aliados do governo Lula: a de desvios em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e a de fraudes do Banco Master.

Nos bastidores, integrantes da PF veem a medida como uma retaliação ao gabinete de André Mendonça. As investigações do INSS avançaram sobre o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, e a do caso Master cumpriu nesta semana uma operação contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).

O gabinete de André Mendonça tem na sua equipe um delegado da PF, Thiago Marcantonio Ferreira, que o assessora desde o ano passado. A avaliação dos bastidores é que o governo precisou fazer uma medida mais ampla porque não poderia determinar apenas a retirada de Marcantonio do gabinete do ministro.

Quando Lula fez seu discurso público, a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) fez uma nota rebatendo o argumento do presidente de que isso fortaleceria a segurança pública e disse que apenas 53 delegados atuavam cedidos para outro órgão, menos de 3% do total da corporação. A ADPF aponta uma crise estrutural nas condições da carreira, como a saída de policiais federais para assumir cargos em outros concursos públicos, como o real motivo do esvaziamento do combate ao crime organizado, e não a cessão de delegados.

A própria PF também já havia feito mudanças na coordenação das investigações da Operação Sem Desconto, que apura os desvios no INSS. No mês passado, a PF trocou a coordenação do caso, retirando-o da divisão de crimes previdenciários e enviado a apuração para a Coordenação de Inquéritos dos Tribunais Superiores (Cinq).

A mudança tirou do caso o delegado que vinha comandando as investigações e que havia sido responsável por pedir a quebra do sigilo bancário de Lulinha ao STF. Na ocasião, a PF argumentou que a mudança foi para dar mais apoio à equipe do caso porque o Cinq possui já uma estrutura voltada a conduzir operações sensíveis.