Em um corredor de minha casa tenho um armário. Ao passar por ele, o que faço ao menos cinco vezes por dia, olho para ver se tudo está ali. O que ganho, o que compro, o que acho. Etc., etc., etc. – saída rápida quando nada mais temos a dizer. Vocês não têm ideia do que recebo, ganho, recolho. Desde livros esperando prefácios, folhetos, brinquedos, restos de canetas, revistas sobre assuntos que jamais decifrarei, até pulseiras de hospital tipo “risco de queda”.
Quando editava a revista Planeta, anos 1970, me chegavam a cada dia assuntos diferenciados, como a existência das fadas, a transmissão por meio do pensamento. Diferente de hoje, tempos de Master, Vorcaro, PCC, pastores liderando bancos, feminicídio a granel; ou conselhos que nos ensinam a mexer com bilhões, que podem chegar a trilhões.
Por que guardei essa tralha? Não sei. Há em nós um agir misterioso que nos induz a fazer determinadas coisas, imaginando que as usarei um dia? No quê? Mistérios nossos. Compro ou arrebanho, acabo não usando. Lápis sem ponta, caixinhas com clipes de metal, envelopes de todos os tipos – dos normais para cartas até imensos, bons para acondicionar revistas como a Piauí ou a E, do Sesc. Não imaginam como esta caderneta é boa. E pinças? Tenho nove envelopinhos 3 x 2 que não sei para que foram criados.
Falando em envelopes, dei com um, vermelho, com a mensagem: “Parabéns, agora você é um cliente Fidelidade Vermelho”, assinado por Wagner Ferreira. Vejo que é da TAM, no tempo em que ostentava o nome de Transportes Aéreos Marília. Ou algo semelhante. Época em que você estava na redação e quem surgia na porta para uma visita? O comandante Rolim, CEO da empresa, figura popular. Aliás, a última vez que estive com o comandante foi na Vogue. Ele entrou com o Mino Carta. Mino, bom jornalista, pintor, adorava histórias que o enaltecessem. Fomos amigos até a morte dele. Pois o Mino se gabava ao Rolim, naquela manhã, de quando o meu time de futebol amador, da Última Hora, jogou contra o do Jornal da Tarde, na Rua Javari (anos 1960/1970). Perdemos por 4 a 1. Eu no gol. Mino fez dois e bateu mal um pênalti. Tivesse vivido, estaria consolado: Messi acabou de perder um nesta Copa.
Nesses momentos percebo que o tempo passa sem que a gente dê conta. Daqui a pouco farei 90 anos, me assusto, me esforço para chegar. O que posso fazer? O armário! Papéis de carta em proporções imensas – de hotéis, empresas, etc. Um bloquinho com o logotipo do Mackenzie. Estive lá levado pela araraquarense Maria Helena de Moura Neves. Esperem. O que é esta maquineta de cobre? Nooossa! Esperem a próxima crônica.
