quinta-feira, 9 de março de 2017

LOTUS 49


1967 - Em um momento como este, é tentador dizer que gostaríamos de voltar a 1967. Mas o cara ao volante é Alexander Rossi, piloto de testes da Caterham F1 e, hoje, o único piloto americano na categoria. Ele é jovem, confiante e nunca havia pilotado um carro como este. Rossi está no Circuito das Américas, em Austin, Texas, a primeira pista construída exclusivamente para a F1 nos EUA.

Quando chegamos ao Circuito das Américas com nosso Corvette, o Lotus ainda não havia chegado. E estava chovendo. Decidimos matar o tempo embarcando para uma volta no ZR1 ao lado do único piloto de F1 americano, Rossi, 22 anos, seria o primeiro a lembrar que, no momento, ele é apenas piloto de testes. A progressão natural de sua vida foi o kart (aos seis anos), Formula BMW (16 anos), Campeão da Formula BMW (17 anos), depois Formula Renault 3.5 (20 anos) e agora piloto de testes da Caterham. Daqui para frente, ele espera que o padrão seja mantido: piloto titular, marcador de pontos, vencedor de GP e, finalmente, Campeão Mundial.



Uma hora mais tarde, uma discreta picape Ford entrou no paddock com um pequeno reboque atrás. Era o momento em que o Lotus seria levado aos boxes. Os painéis finos de alumínio; o motor Cosworth DFV V8 de 415 cv capaz de girar a 9.000 RPM. Assim era o Lotus em seu auge romântico, e o 49 foi a expressão pura de seus ideais, praticamente feito sob medida para um dos maiores pilotos a ter defendido o nome dela, ou de qualquer outra equipe.



Nosso carro, o Chassi R2, foi usado pelo escocês campeão do mundo, Jim Clark, amigo do fundador da Lotus, Colin Chapman, e o grande piloto de sua era. O R2 foi o carro de Clark em 1967, o primeiro ano do 49, e a temporada em que ele e seu companheiro de equipe, Graham Hill, conquistaram a pole em todas as nove corridas disputadas na época.

O 49 foi projetado para receber o motor DFV (com 155 vitórias, é o motor mais vitorioso da história da F1) e vice-versa. Foi o primeiro carro a usá-lo. Na configuração 49B, usada depois de 1967, o R2 foi o primeiro carro de Formula 1 a ter as cores de um patrocinador, em vez das cores nacionais, depois que Chapman vendeu os direitos do nome Team Lotus para a marca de cigarros Gold Leaf.

Também foi o último carro de ponta da F1 a correr sem asas, embora tenha sido o primeiro a adotá-las em sua configuração 49B. Ele utilizava seu trem de força como componente estrutural, tornando-se o primeiro carro de F1 construído com base nesta técnica, algo que foi copiado por todos até hoje.

Depois da morte de Jim Clark em uma prova de Formula 2, em abril 1968, o R2 foi usado por Jackie Oliver e Mario Andretti. Depois, foi comprado pelo piloto americano Pete Lovely. Agora pertence ao colecionador Chris MacAllister e foi restaurado pela Classic Team Lotus ao estado em que correu o GP dos EUA de 1967, vencido por ele.



Agora estamos separados da história por nada além de respeito por seu assistente mecânico. Neil Brown é um inglês pequeno, robusto e ex-mecânico da Lotus F1 e da Champ Car. A alegação de que ele está lá para ligar o carro não nos parecia real até que, depois de várias revisões e uma borrifada de combustível em cada corneta de admissão, o motor acorda.

Nenhum dos presentes quis usar protetores auriculares. Exceto Brown, que vê o 49 o tempo todo e parece não ter sentimentos especiais pelo carro. Talvez seja por causa da pouca idade, mas o Lotus não parece algo sagrado para Alexander Rossi. Ele assiste o carro aquecendo em marcha lenta à distância. Brown decidiu que a pista já estava segura o bastante para algumas voltas de aquecimento para Rossi pegar o jeito do carro.

Brown falou com ele sobre a condução do 49: manter o motor acima de 4.000 RPM para manter a pressão do óleo, não abrir o acelerador até que a água chegasse a 50º graus, preferencialmente 90 graus. A primeira marcha geralmente trava a caixa, por isso é preciso arrancar em segunda.

Rossi termina as três voltas e retorna ao box apagando o motor com um tranco. Quando ele levanta a viseira, sorri com os olhos um tanto surpreso:

"Ele é bem rápido!"



Ao longo do teste, Rossi não parou de sorrir. Nem ele, nem ninguém, até que Brown nos informou que o motor teve um problema de alimentação de combustível e não ligava mais. As outras voltas vão ter que esperar. Perguntamos a Rossi se ele gostaria de ter pilotado pela Lotus. A resposta foi um sonoro não.

"Este carro é mais diversão. O atual carro da F1, com respostas instantâneas, trocas de marchas tão rápidas quanto a velocidade de seus dedos, é algo desconectado da realidade. Você vira o volante a 300 Km/h e ele faz a curva. O Lotus é mais divertido, mas não tão recompensador.

Toda vez que Rossi diz divertido, ele faz aquelas aspas com o dedos no ar. "Carros modernos de F1 não quebram. Você pode lançá-los sobre a zebra para conseguir um décimo de segundo sem preocupações. Especialmente nas classificações, você abusa do carro. Não há nada de romântico. Você usa 100% da sua concentração e do seu talento o tempo todo".

Mas não é preciso um pouco de romantismo? Você não precisa simpatizar com a máquina? 

"Por que?", pergunta ele, impaciente.

Ele olha para Brown, cujas mãos estão enterradas no motor do 49 e pergunta: "O que que há de romântico naquilo?"

É claro que não há nada de romântico em um carro que não liga. Mas este tipo de problema era comum em 1967 e por muito tempo depois. As peças eram frequentemente testadas pela primeira vez durante a corrida. O fato de este carro ter vencido sua primeira corrida, o GP da Holanda de 1967, faz dele um dos carros mais confiáveis de sua época.








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