1979 - "Entrar para o automobilismo não é fácil. Sair é ainda mais difícil ..."
Em duas frases curtas, o paulista Arturo Fernandes, 34 anos, define sua paixão pelo esporte da velocidade. Uma paixão que vem crescendo desde os nove anos, quando assistiu à primeira corrida de sua vida, em Interlagos, levado pelo pai Manuel Fernandes Carrera, fã ardoroso do lendário Fangio.
Garoto ainda, Arturo dava duro no supermercado da família Fernandes, em São Caetano, subúrbio da Capital, e guardava as mesadas, com a idéia fixa de comprar um carro. Conseguiu um velho Simca Rali, tão velho que ninguém, entre seus conhecidos, topou preparar para uma prova de estreantes.
" Era uma bomba mesmo," reconhece Arturo.
Aos 17 anos, entrou na vida. Conseguiu empregar-se como auxiliar de mecânico na antiga oficina de Chico Landi e Tony Bianco. E aprendeu muito. Logo conseguiu comprar um Fuscão demolido, dedicando-se então a refazê-lo com paciência e capricho. Esperou cinco anos, mas quando alinhou para a largada das Mil Milhas de Interlagos 1972, era, certamente, o piloto mais feliz do mundo.
Sempre esperando, eis a sina de Arturo. Ele, que demorou a estrear, demorou cinco anos até receber a primeira bandeirada da vitória. Aconteceu em 77, no autódromo de Tarumã (RS). Plantado no pódio, lembra, ficou sem poder falar durante quase meia hora, de tanta emoção.
Tarumã foi o marco inicial. Desde então, Arturo tem colecionado vitórias. Ano passado, conquistou o título de Campeão Brasileiro da Divisão 3. Neste ano, foi Bi-campeão e promete chegar ao tri, em 1980.
É, confessa Arturo, o automobilismo é um montão de alegrias e tristezas. A gente fica preparando o carro durante duas semanas, treina, luta por uma pole-position, larga bem e, quando está dentro da prova, um simples cabo de vela solto pode te tirar a vitória. Aí, tenho que contar até 300, para não explodir.
E uma explosão de Arturo não deve ser brincadeira. Com seus 92 quilos, ele é o peso pesado das pistas brasileiras.
"Mas sou um piloto calmo, afirma. Quanto ao meu estilo, depende da necessidade. Se precisar dar um "totozinho" no carro da frente, eu dou, assim como levo, com a maior naturalidade".
Arrojado, quase sempre. Técnico, quando necessário: Na corrida final da Divisão 3, no Rio, ele deixou que Amadeu Rodrigues disparasse na ponta, preferindo garantir uma vantagem de 7 segundos sobre Amadeo Campos que, este sim, brigava diretamente pelo título.
Bicampeão, alegre, realizado, Arturo fala de uma grande fraqueza, fora das pistas:
"Sou Corintiano roxo. Mas deixei de ir a campo desde que entrei numa briga feia com palmeirenses, depois de uma derrota do Timão, ano passado."
Vai tão longe seu fanatismo pelo Corinthians, que pintou seu carro particular com listras pretas e brancas. Além de escrever os mones dos jogadores campeões de 77. Entre o futebol e as corridas, porém, Arturo não hesita, até porque tem plena consciência do tempo que lhe resta. Aos 34 anos, não pode almejar muita coisa, nem mesmo competir em outras categorias. Garante, porém, que só sairá do automobilismo quando não puder mais pilotar. Isso o deixa frustado, pois gostaria de ter cumprido uma carreira normal, iniciando-se nas Fórmulas menores e culminando com estágio na Europa.
"É que o começo foi muito duro, admite. Agora fico na Divisão 3 até encerrar a carreira, lé pelos 40 anos".
Coroa, sim, mas se há um orgulho especial, além do bi campeonato, é sua incrível capacidade de pilotar à noite.
Das quatro provas noturnas que disputou, inclusive Festival do Álcool, ganhou três e fechou a outra em segundo, por problemas mecânicos.
Irônico, Arturo diz que é "meio olho-de-coruja", e que pisa firme à noite por só enxergar o ponto de freada quando já está em cima:
"Por mim, o campeonato todo seria disputado à noite. Fosse assim, e me consideraria franco favorito."
Durante cinco anos seguidos, Arturo veem mantendo o patrocinador, sem jamais ter assinado um contrato. É um outro motivo de orgulho, claro. Corre pela Luxforde na base da maior confiança, e só agora firmou compromisso até o final de 80. A vida será a mesma, até lá.
Todos os dias, trabalhando no supermercado Henry, de São Caetano. Todas as noites, passando na oficina, orientando o trabalho dos seus mecânicos. Uma vez por ano, esquiando, apesar dos seus 92 kg. E sempre fumando muito. Explica e resume:
"Sou um cara muito simples. Minha meta é ganhar outros campeonatos na Divisão 3. Não me sinto campeão por ser campeão. Sou um piloto que compete porque gosta da pista. É a minha cachaça, e nela me embriago. E pretendo viver nesse porre enquanto estiver lúcido para pilotar".