quarta-feira, 1 de agosto de 2018

ALEX DIAS RIBEIRO






1974 - "Era um dia de setembro, em 1974. Nessa época começava a esfriar ao leste da Inglaterra, onde eu morava com mais três amigos brasileiros, na pequena e pacata vila de Wymondham, perto de Norwich, no condado de Norfolk.

Uma casinha pequena, de dois andares, com dois quartos na parte de cima e sala, banheiro, cozinha e um pequeno escritório no térreo. O escritório era também meu quarto, pelo qual eu pagava uma quarta parte do aluguel da casa. Os colegas eram Marcos Moraes, também piloto de Fórmula 3, e seus amigos Jorge Alexis e Cláudio Cesar, que nós chamávamos de Piauí, por ser daquele Estado.

Apesar de não nos conhecermos muito bem, éramos uma família feliz. Marcos cozinhava, Jorge Alexis e Cláudio se revezavam na arrumação da casa e eu aparava a grama e cuidava da manutenção, consertando pia, persiana, instalação elétrica, etc. Morávamos ali, naquele fim de mundo, porque queríamos estar perto da fábrica da GRD (Group Racing Developments), pela qual competíamos na Fórmula 3.

Éramos todos principiantes no que diz respeito à Fórmula 3 e à Inglaterra. Lutávamos com os problemas de adaptação a um mundo completamente novo para nós: clima, alimentação, costumes e tudo mais. Nosso assunto, e único interesse, eram os carros de corrida, por isso não nos importava que a pequena cidade não oferecesse grandes programas ou perspectivas emocionantes. Nosso mundo era o das corridas.

De carro, a viagem de casa até a pista de Snetterton não durava mais que 25 minutos. "Piauí" e eu conversávamos no caminho sobre as mesmas coisas de sempre, acrescidas de um pouco de saudade do Brasil. Já estava chegando o fim da temporada de 1974 e começávamos a contar as semanas que faltavam para o dia da volta. Cada um tinha um plano para este dia tão esperado, quando nos encontraríamos com a família, os amigos, as namoradas, o calor, a praia e até a feijoada.

Foi um daqueles dias cinzentos de outono inglês e tudo irradiava uma paz muito grande. Quando chegamos à pista, Kiyo, meu fiel mecânico japonês, aquecia o motor do meu GRD 374. Uma nuvem de vapor saia dos canos de escape quentes em contato com o ar gelado da manhã.

Tínhamos muitas peças e inovações a experimentar, o que requeria de nós um dia inteiro de exaustivos testes. Por isso chegamos bem cedo, quando a pista ainda estava deserta. Coloquei o capacete, as luvas e enfiei-me lentamente  no estreito cockpit. Tão logo Kiyo afivelou e apertou os cintos de segurança, sai devagar, aquecendo os pneus, freios, amortecedores, etc.

Era quinta-feira. Às segundas e quintas a pista estava aberta para treinos, mas as coisas sempre aconteciam nas quintas-feira em Snetterton, o meu circuito favorito. Eu me sentia em casa, não só pelo fato de morar perto e treinar sempre lá, mas também por que ali eu vencera minha primeira corrida na Europa, numa linda manhã de primavera, ensolarada e quente, o contrário daquele dia.

Sempre que havia corrida de Fórmula 3 em Snetterton, eu era o favorito. Um circuito muito perigoso, onde eu fiquei conhecido e respeitado por ser um dos poucos pilotos que conseguia fazer a Curva Russel, em frente aos boxes, de pé embaixo. Mesmo depois de ter assistido de perto a um acidente fatal com um piloto de "clubman" (categoria nacional de corridas inglesas e nome dos carros dessa classe), exatamente ali e numa quinta-feira.

Mas isso ocorrera na primavera, e apesar de ter sido chamado a depor na polícia como testemunha ocular, pois vinha logo atrás do acidentado, muita coisa já havia acontecido e eu esquecera tudo. Agora eu era um piloto de ponta na Fórmula 3, e lutava com unhas e dentes para conquistar o vice-campeonato.

O líder Brian Henton, veterano na categoria e mecanicamente mais bem equipado do que eu, acumulara uma vantagem bem grande em pontos, depois de haver vencido a maior parte das corridas da temporada.

Apesar de não dizer nada a ninguém, no íntimo alimentava uma grande esperança de vencer o campeonato, já que matematicamente isto era possível, embora muito difícil. Vontade de vencer e autoconfiança não me faltavam. Apesar de ser o meu primeiro ano na categoria, as coisas estavam acontecendo a meu favor e eu me sentia impulsionado para a frente, correndo no vácuo do Senhor. Deus estava comigo e ninguém podia conosco, pensava eu.

Com três voltas de aquecimento no treino daquela quinta-feira eu já estava andando forte e, na quinta passagem, resolvi fazer a Curva Russel de pé em baixo. É uma curva de alta velocidade, em S, que fazíamos em quarta marcha a quase 200 Km por hora.

Uma curva cega, cercada de barrancos altos, em que só se avistavam os pontos de tangência depois de já estar dentro dela. Minha técnica consistia em atirar o carro no escuro e, lá dentro da curva, achar os dois pontos de tangência, trançando então uma reta entre os dois extremos que me levaria, automaticamente, ao destino certo de saída.

A diferença entre fazê-la de pé em baixo ou "quase" de pé em baixo era muito grande, porque logo em seguida vinha uma reta com subida e assim ganhava-se tempo não só na curva mas em toda a reta dos boxes.

Quando atirei o carro para dentro da Russel, ele deu uma rodada violenta e eu me vi viajando de ré a todo o vapor rumo ao barranco onde se acidentara, além do piloto do acidente fatal que testemunhei, também meu amigo Marcos Moraes, numa batida semelhante à que eu ia dar agora.

Tentei evitar o pior, procurando dirigir o carro de marcha-à-ré para o meio da pista, desviando-me do choque mas, quando ele chegou à grama molhada, deslizou como um "esqui na neve" na direção do barranco. Haviam espalhado argila no local para diminuir o impacto em caso de acidente mas, com a chuva, a argila escorreu, formando uma espécie de rampa que fez com que o carro voasse muito alto.

Quando decolei, o motor morreu e, no silêncio que se seguiu, pude ouvir até o assobio provocado pelo carro em vôo. Olhei para o chão e vi que estava de cabeça para baixo a uns 5 metros de altura.

Tirei as mãos do volante e encolhi os braços, prendendo-os rapidamente entre as pernas, para evitar quebrá-los, como infelizmente havia acontecido com o Marcos Moraes no seu acidente, e pensei comigo mesmo: Senhor, essa vai ser fogo !

Tudo isso aconteceu numa fração de segundo, mas lembro-me de todos os detalhes, como se tivesse sido em câmara lenta.

Aquela altura do chão, naquela velocidade e naquelas circunstâncias, só mesmo Deus podia fazer alguma coisa por mim. Por melhor e mais competente piloto que eu fosse, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser esperar pela pancada. Daí aprendi que "as impossibilidades do homem são as oportunidades de Deus para operar em nossas vidas", como diria Corrie Ten Boon.

Estamos sempre tentando controlar tudo que está ao nosso alcance, tudo que diz respeito à nossa vida. fazemos e acontecemos, sentimo-nos senhores absolutos de tudo. Deus existe, sim, mas Ele lá no céu e eu aqui. Minha vida dirijo eu. Quando, porém, as circunstâncias escapam do nosso controle e nos vemos de repente metidos numa fria, quando tudo está perdido, existe alguém muito mais poderoso e influente do que nós, que pode fazer alguma coisa, e que às vezes não o faz porque não lhe damos a mínima chance de agir. Por isso é que de vez em quando Ele nos vira de cabeça para baixo, para podermos enxergar as coisas de um ponto de vista diferente do nosso.

A aterrissagem não foi das mais suaves. Lembro-me de que primeiro o carro caiu de frente, depois de traseira. Uma série de pancadas na cabeça me fez perder a noção do que houve. Depois me disseram que o carro capotou seis vezes até parar e eu ficar de cabeça para cima. Perdeu as quatro rodas, a carroceria, o aerofólio e os radiadores, de maneira espetacular. Quando parou, restavam apenas o chassi, o motor e eu, coberto de óleo.

O capacete perdeu a viseira e a borracha da moldura da face, mas eu estava ileso, sem um único arranhão !

Soltei os cintos e pulei para fora dos destroços imediatamente, antes mesmo que Kiyo e Piauí pudessem vencer a inércia. Eles ficaram paralisados por alguns momentos diante do que haviam acabado de ver. Vieram correndo e, sem saber o que fazer, me abraçaram. Estavam mais assustados do que eu.

Quando conseguiram falar, começaram a contar todos os detalhes do acidente, enquanto eu louvava a Deus e lhe pedia que me desse outro carro para a corrida do próximo sábado em Mallory Park.

Quando a placa que anunciava que faltavam 3 minutos para a largada foi levantada e todos se retiraram de perto dos carros, eu fechei a viseira do capacete e fiquei novamente a sós com o Senhor.

Naquele momento agradeci-lhe e louvei-o muito por estar ali em Mallory Park, sentado no carro-reserva de Marcos Moraes, cedido gentilmente para que eu pudesse participar da corrida."


ALEX DIAS RIBEIRO