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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

BARÃO DAS ARDENHAS

Desde Nürburgring, quando Merzario cismou de passar o carro de Ickx e um dos engenheiros o ameaçou com um martelo, todos viram a Ferrari em crise


1973 - E como foi o Barão das Ardenhas no treino de hoje?

Quando o comendador Enzo Ferrari, no telefone de seu escritório, fez essa pergunta ao engenheiro Giacomo Caliri, chefe da equipe Ferrari, já sabia tudo o que havia acontecido antes, durante e depois do treino em Zeltweg, preparatório para os 1000 Quilômetros de Osterreichring, na Áustria, prova válida pelo Campeonato Mundial de Marcas. Sabia até mais do que o próprio engenheiro. À sua frente estavam dezenas de informações. Quando o engenheiro disse que Jacky Ickx não havia treinado, o comendador respondeu que já sabia.

"Mas para dar entrevistas ele teve tempo e disposição. Não foi?"

Quando, no dia seguinte, Jose Carlos Pace, Caliri e outros funcionários da Ferrari, depois de chamá-lo de Barão das Ardenhas, explicaram rindo por que o faziam, Ickx surpreendeu-se apenas um pouco. E riu também.

"Não sei por que só agora ele resolveu chamar-me de Barão. Sou chamado assim há muito tempo".

Sem o título de barão, mas dono e herdeiro de uma das maiores fortunas da Bélgica, casado com uma milionária, com seu nome diretamente ligado a todo negócio de construção e hotelaria naquele país, dando-se ao luxo necessário de ter como secretária particular a ex-secretária do primeiro-ministro da Bélgica, último a chegar para os treinos, sempre com perguntas certas e importantes sobre o país da pessoa com quem fala, Jacky Ickx, na sexta-feira, dia do último treino para a classificação para a ordem de largada, pegou sua Ferrari 312P, deu algumas voltas, notou e comentou os defeitos que apresentava, fez o terceiro melhor tempo, atrás apenas das Matra e saiu contente, dando autógrafos aos meninos que lhe estendiam álbuns de fotos e não pedaços de papel.

"Não gosto de dar autógrafos a gente grande, que não vai guardá-los. Mas fico contente quando um desses meninos me procura com seu álbum organizado, próprio para o que ele quer."

O comendador ficou satisfeito com o tempo de Ickx, mas não mandou nenhum recado ao Barão das Ardenhas através do telefone.

Ele não esqueceu e nem parece tão fácil esquecer, que Jacky Ickx, uns dez dias antes, havia afirmado desejar encontrá-lo para "acertar os ponteiros do relógio". Não apareceu nem mandou qualquer desculpa.

É que, comentam, entre Ickx e a Ferrari existe muito mais do que as cenas de ciúme de Merzario, os olheiros do comendador e a vontade de alguns jornalistas italianos de finalmente depois de muitos anos, encontrarem um ídolo nato que eles possam adorar e promover sem se sentirem perseguidos pelas palavras oriundo ou adotado.

Exitem os interesses da Fiat, da Ferrari, de muita gente que vive do automobilismo, como há a fidelidade de Ickx aos seus amigos e principalmente aos bons profissionais.

A Fiat tem interesses financeiros na Ferrari. É dona de grande parte das ações da fábrica, mas não tem o controle na parte das competições. Tem apenas alguns homens de confiança que fazem parte da equipe, entre eles os engenheiros Carliri e Colombo, dois amigos de Ickx, os quais, dizem as más línguas, há quem queira derrubar.

Jacky Ickx é grande amigo do comendador Agnelli, da Fiat, amizade anterior à contratação do piloto pela Ferrari, que não representava os interesses da Fiat nos seus negócios com a Ferrari, mas não aceita qualquer decisão que não lhe agrade, e muito menos ainda se ela prejudicar alguns de seus amigos.



Fora da política financeira, dos interesses de grupos, o desencontro entre o belga com cara de menino, apesar dos 28 anos, e a Ferrari está na forma como algumas decisões são tomadas e na qualidade dos carros que a fábrica põe à sua disposição, tanto no Campeonato de Marcas como na Fórmula 1.

O comendador Ferrari, não por declarações, mas por informações, nem sempre de viva voz, mas quase sempre por autorizados porta-vozes, reclama que Ickx não treina e não testa os carros, não cumprindo totalmente suas obrigações. Ickx confessa que não gosta muito de treinar, de fazer testes, que seu negócio é correr, andar pra valer. Mas reafirma que não deixa de cumprir suas obrigações.

"Não corro por precisar de dinheiro, mas porque gosto. Preciso dessa vida para me sentir bem. E também testo os carros na medida em que acho necessário. não vejo por que fazer mais do que faço, por que testar mais vezes."

Sem fazer todos os testes que a fábrica deseja, Ickx acaba tendo seu carro testado por Merzario, que o coloca a seu modo, ao seu gosto, não o de Ickx. Esse é o pior problema. Um carro tem que estar sempre no ponto, mas de acordo com o gosto e jeito do piloto.

"Eu sinto o mesmo problema aqui na Ferrari, mas o meu é mais fácil de ser entendido. Corro com Merzario no Campeonato de Marcas e como o carro tem que ser guiado por dois pilotos, nunca fica ao gosto de um deles. Eu tenho meu jeito, Merzario o dele. Nenhum fica totalmente satisfeito, mas quando os dois entendem isso já é bom", diz Pace.

José Carlos Pace está ao lado de Ickx. Ele é amigo do belga, a quem segue na divisão que cada vez mais se caracteriza entre os pilotos; uns seguindo Emerson e Stewart, populares, outros Ickx, esquivo, de pouco falar. Pace acha, principalmente em termos de Fórmula 1, que o carro devia apenas ser testado por Ickx.

Mas Pace evita falar mais do que julga necessário. Por ser amigo de Ickx e porque alguns jornalistas já indagam se é verdade que o comendador Ferrari vai contratar um novo piloto italiano para sua equipe e se esse piloto formará dupla num terceiro carro ou se sentará num dos dois que sempre correm.

Pace tem preferido ser o primeiro a chegar nos treinos, esperar com paciência a hora de pegar no carro. E ainda não reclamou de, ás vezes, como em Zeltweg, poder dar apenas cinco ou seis voltas na pista, assim mesmo depois de terem trocado a pastilha de freio do carro, o que o obrigava a andar com maior cuidado.

"Estou tranquilo, mas prefiro falar pouco para não ser mal interpretado. Tem gente por aqui que muda muito o que se fala".

Enquanto Pace fala pouco e Brian Redman se afunda nos livros e revistas que carrega para todos os lados, Merzario, saltitante, ao lado de uma loira, parece viver dias de grandes glórias. Depois da cena e dos aplausos recebidos em Nurburgring, deu muitas entrevistas e passou a ser, mais firmemente, uma grande esperança do automobilismo italiano. Não tanto pelo que já é, mas pelo bom prato que pode ser para a imprensa. De Merzario dizem que não é nenhum bobo, que já é um bom piloto e vai melhorar, mas que não leva nenhuma pinta de campeão.



O incidente de Nurburgring já é passado para Merzario e os engenheiros que lhe deram ordem para não forçar o carro. Mas parece ainda não estar solucionado para Ickx, Pace e a Ferrari.

Durante a prova de Zeltweg, Ickx preferiu a companhia de Pace e jamais se aproximou de Merzario. Em meio a uma conversa, teve um incidente com repórteres italianos. Os jornalistas explicavam que:

"o piloto está desesperado porque sabe que o comendador não vai reformar seu contrato para a temporada de 74; vai contratar Emerson ou Stewart, gente boa, para guiar seus carros de Fórmula 1."

"Até agora ninguém falou nada comigo. Mas se vierem dizer que não trabalho, que não ganho corridas, direi abertamente o que penso dos carros. Vou dizer que não valem nada. Não é jogando a culpa de outros sobre mim que irão solucionar problemas".

Ickx tem contrato até o fim do ano e não pretende rompê-lo. Acha lugar em qualquer equipe quando quiser, embora ganhando um pouco menos do que na Ferrari. Enquanto isso, sintomaticamente, comenta-se sensacionais transferências na próxima temporada: Stewart iria para a Ferrari, Ickx para a Tyrrell, Emerson sairia da Lotus.

Tudo relacionado com a briga Ferrari X Ickx, trazida claramente a público quanto Merzario, em Nurburgring, resolveu desrespeitar as ordens da chefia da equipe e, com a prova ganha pela fábrica, tentar ultrapassar o carro de Ickx.

Na mesma hora recebeu ordens de parar (um dos engenheiros chegou a mostrar um "martelo" pra ele, fazendo sinal de que o jogaria no carro) e entregou o carro a Pace.

Mas conseguiu o que queria: agora todos sabem que há uma crise na Ferrari.









sábado, 5 de novembro de 2016

MARKO/PACE


1972 - Clay Regazzoni quebrou o braço numa pelada de futebol e a Ferrari teve de recompor suas duplas para os 1000 Km de Osterreichring. Então, José Carlos Pace que correria com Brian Redman, formou dupla com Helmut Marko, pilotando uma Ferrari 312P, e acha que ganhou com isso, porque Marko é um dos que mais conhecem o circuito austríaco. O fato é que o excelente segundo lugar que Môco conseguiu com Marko, em sua primeira corrida pela Ferrari, foi uma boa surpresa e revelou uma excepcional capacidade de adaptação.

Durante as duas sessões de treino de uma hora cada no sábado, o tempo não estava bom e a garoa se alternava com a chuva. Marko saiu primeiro, porque conhecia melhor a pista e tentaria garantir uma boa colocação para a largada, o mais depressa possível. Na primeira sessão, Pace deu apenas três voltas; quando parou para reabastecer o carro começou a chover mais forte e ele desistiu. No segundo treino, teve de assentar novas pastilhas, mas precisou parar de novo para trocar os discos. Apesar da perda de tempo, conseguiu o melhor tempo dessa segunda parte, isso em apenas oito voltas. O melhor tempo de classificação da dupla foi conseguido por Marko, que garantiu a largada em quinto lugar, depois de Derek Bell, Vic Elford, Jacky Ickx e Ronnie Peterson. Atrás de Marko e Môco, ficaram Arturo Merzario e Luizinho Pereira Bueno.

Luizinho Pereira Bueno

Na partida, o Lola de Gerard Larousse e Vic Elford falhou e Ickx saiu na frente. Quando terminou a primeira volta, a ordem era essa: Ickx, Marko, Schenken, Merzario, Bell, Larousse, Luizinho Pereira Bueno e Rolf Stommelen nos primeiros lugares.

No fim da primeira hora ocorreu o choque de carros que afastou Luizinho da corrida: ele tinha dado uma excelente largada, ficando em quarto lugar, mas seu Porsche 908 foi passado logo na reta e ficou atrás dos carros mais modernos. Quando Marko apontou, Luizinho deu passagem, Marko então passou por dentro, mas com três carros à frente, bloqueando a passagem, bateu de lado no carro de Luizinho, em vez de frear na curva da maneira certa. Como o toque foi antes da curva e Luizinho estava a uns 190 Km/h em quarta, saiu pela grama rodando, bateu num obstáculo e quebrou a frente do carro. Ainda tentou ir até os boxes, mas não deu mais.

Tite Catapani

Assim que terminou a corrida e, embora Marko conhecesse muito bem a pista, os méritos pelo segundo lugar devem ser divididos igualmente entre ele e Pace, que correu muito bem.

Pace gostou muito do carro, mas disse que no fim a Ferrari estava saindo muito de traseira e a direção havia ficado dura. A posição também não era boa para ele, porque o banco estava muito distante e apertado: Helmut Marko é pouco mais alto que Pace e bem magro e, por isso, quando a corrida acabou, o brasileiro nem podia andar direito por causa das dores nos quadris.

De qualquer forma, considerando-se que Pace estreou com uma Ferrari, o resultado foi excepcional e lhe garantiu convites da própria Ferrari e da Gulf/Mirage.