terça-feira, 8 de março de 2016

O AFONSO TEM RAZÃO

 Ralph Firman, o patrão, está entusiasmado com Chico Serra


1977 - Foi Afonso Giaffone quem chegou perto daquele menino de 14 anos e disse: "Leve esse negócio a sério. Você tem jeito".

Chico Serra levou o negócio a sério. Cansou de ser campeão com o kart e, ao passar para os carros, foi vice na Fórmula Vê. Quando estava em dúvida entre a Super Vê e o automobilismo europeu, foi mais uma vez a conselho de Giaffone que Chico Serra decidiu-se pela Fórmula Ford inglesa. "O Afonso me convenceu. É gozado, no fim das contas, ele sempre tem razão".

Chico chegou como segundo piloto, vaga conquistada nem tanto por méritos próprios e muito mais pelo rico dinheiro dos patrocinadores. À sua frente, 12 anos mais velho, o veterano Donald MacCleod, bicampeão da Fórmula Ford e contratado especialmente para ser tri na Van Diemen. Hoje, Ralph Firman está confuso, sem saber como se dividir entre os dois pilotos e sem entender direito como aquele estreante de 20 anos está derrubando os recordes de seu primeiro piloto para liderar o Townsend Trophy.

Era lógico que surgisse a rivalidade. MacCleod começou a reclamar mais atenção da equipe, a argumentar que o motor falhava, e isso e aquilo. E, por picuinha, até chamava o já popular Tchico pelo desconhecido segundo nome, "Adolfo". Ralph Firman, tentando verificar se realmente havia algum problema no carro de MacCleod, pediu a Chico Serra que o testasse, no circuito de Snetterton. O brasileiro deu várias voltas virando até meio segundo mais rápido do que o tempo habitual do primeiro piloto.

 O mecânico Dennis Rusmen é o maior fã de Chico

Chico firmou-se ainda mais no conceito do patrão, para alegria de seu maior amigo e fã, Dennis Rusmen, o mecânico de seu carro, que não deixa por menos: "Tchico" vai ser campeão na Fórmula Ford, na Fórmula 3 e na Fórmula 2, e eu vou estar com ele quando chegar à Fórmula 1. Sua dedicação ao piloto brasileiro é total. Prepara o carro com o maior carinho, guarda as coroas de louros das vitórias, aplica-se no aprendizado do português e ensina Chico Serra a falar o inglês. 

Aos poucos Chico vai analisando e surpreendendo-se com a categoria que disputa. Normalmente são mais de 100 inscritos, obrigando à realização de provas classificatórias e baterias semifinais antes da corrida para valer. E é uma disputa muito dura, até suja, ao contrário do que acontece no Brasil. Nas pistas brasileiras a briga maior é travada nos boxes, com os xingamentos depois das corridas; na Inglaterra, todos são civilizadamente educados depois e uns tremendos bandidos durante a corrida.

Já na estréia, em Brands Hatch, Chico pôde perceber essa diferença. Emocionado com a surpreendente pole position, foi junto com Mike Blanch para a primeira freada e bateram. O inglês saiu da pista e lá ficou, enquanto Chico continuava para recuperar algumas posições e ainda chegar em quinto. No final, ainda despindo o macacão, sentiu a aproximação de Blanch e se preparou para a discussão: "Pensei: é agora. O homem, além de veterano, é inglês; eu, estreante e brasileiro. Ficou agradavelmente surpreendido com o aperto de mão e o elogio: "Foi uma boa corrida, garoto".



Há, porém, o outro lado do sucesso: a inveja. Se para a imprensa inglesa ele já é um piloto consagrado na categoria e com grande potencial para o futuro, há quem diga que Chico teve a sorte de pegar um carro excelente e que este é um dos anos menos competitivos da Formula Ford britânica. O mais triste, para o rapaz, é que tais comentários partem de colegas brasileiros de menos sucesso em outras categorias.

Da pole-position em Brands Hatch saiu para mais 12, nas 15 corridas disputadas até agora, conseguiu 10 voltas mais rápidas, cinco vitórias, três segundos, somando 209 pontos na contagem geral, feita ao estilo Can-Am, com 20,15,12,10,8,6,4,3,2 e 1 ponto para os 10 primeiros.

Também não muda seu temperamento. Esquece a discriminação, orgulha-se comedidamente das façanhas e diverte-se em preocupar sua mãe, Baby Jordão, que a cada final de corrida telefona de São Paulo para saber o resultado. "Bati.....", reponde Chico, deixando um momento de suspense no ar antes de completar a frase: "....o recorde da pista".





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